terça-feira, 28 julho 2026

Memórias de Naífe Meninice

«Se o mar tivesse uma varanda, eu veria o rei da India pela frincha de janela da minha ilha» – Sísifo Ali Jó

Um dia, o galo vai cantar na baía da minha Enseada. Perdoa-me o confrade Manuel Lopes, por te roubar esta batida preciosidade. Sabe, eu sou de origem obscura e não me sinto parte de terra alguma. Nunca entrei numa escola, nunca aprendi a pensar, a ler e a escrever. Jamais tive noção de catequese. E pior um pouco meditar em coisas de nobilíssimo quilate. Talvez seja da estirpe dos talibés e palaiês da minha África.  A pátria que me coube está no signo dos vates, no vento e na pulsão acelerada das marés dos ádvenas, nos versos dos exímios e denodados maiorais da minha crença. Apesar disso, tive infância e adolescência, como todas as criaturas do planisfério. Embora só me lembre vagamente da Enseada de Horizonte, enleada nas ilhargas de Santiago e na miragem da diletante ilha vizinha. Uma estância fatal e mítica, no seu estado assaz genuíno e apossado de mil encantos. E sempre pressentida por minha pele. Porém, em tempo algum tangida e percebida da minha mente. Tão somente visualizada. Ainda hoje me entretenho a coaptar apenas a palavra desnudada de regalia.

Na minha imberbe fase de guri e na eira de uma puerícia-excelsitude, olhava fixamente para o portal da ilha de frente e julgava ser a própria retina da minha alma. Depois, bradando aos céus, suplicava e clamava por azimute do Demiurgo e do seu impoluto espaço aéreo e venerável, ali no poiso do seu pleno monopólio, para me dar o lenitivo de destino, alento adventício, afim de cruzar o canal entre a Angra de Sustenido e a suculenta ilha de estima. A mezinha que me deixava captar e deliciar era singela, benzida e um tanto plana. Do poleiro do meu solar, em Cutelo de Eutimia e de Blandícia, podia divisar um camião rolando amenamente na estrada do infinito da minha próspera visão. A linha de horizonte ali findava. O limite entre o perene céu ideal e a terra perdulária e enjeitada também ali.  A nítida separação entre a magnificência de Deus no etéreo e a finitude do ser humano manifestava-se na esguia da sua díafana envolvência.

O meu Castelo de Sol na Fronte, não obstante trucidado desde ninho e vítima de vários ataques, tropelos e desaforos ao longo do seu percurso, deixava-me fitar e espairecer, horas a eito, a meritíssima de brinde, dando-me arrimo o ser do alto, para apreciar ou renunciar a bela noiva de baixa e escultural feição de musa. A Ilha do Quinto Mês, a minha inaugural paixão de sempre e vizinha ocular desde o limiar da minha vida, afigurava-se distraída e muito fria, mas era a principal espetadora do meu esmero nela própria e da minha incessante angústia de a não tocar, mesmo que de queixo caído e derretido a olhar para a sua apetecível fisionomia. Uma donzela acalorada e de estonteante sabor de vista.

E a nina, a magnífica princesa, uma constante de quietude e serenidade, muito prestativa de sal, doçura, peixe fresco e carne seca. Tudo adentro do falucho que arribava, para abonar a minha Enseada de quintessência e o Porto de Manguinho miraculoso, no seu auge daquele então. Uma espécie de majestade tranquila e inspiradora para poetas, marinheiros e trovadores. Marcava ela o ritmo da minha proba respiração, pela curiosidade de saber o que estaria por trás da sua inexpugnável barreira de ilusão, na tela de firmamento. Via-a do cimo do meu Castelo de Sol na Fronte, não para interpretar que me quisesse repelir ou reprimir a tentação da minha parte em avistá-la na nudez da sua mirifica silhueta de mimoseio. E aceder a dar-lhe um fervoroso abraço de distância do meu apreço. A ninfa pupa da minha infância era a junção de todas as potestades fenomenais. Enfim, acobertando de aura resplandecente o pequerrucho, rodeando-o de prebendas e mordomias, mas este a entrar na ombreira de falida adolescência, seria um eleito fustigado e sufragado pela pobreza.

Meu pai decidira plantar um pé de calabaceira, com o fito de lhe chamar a formidável ilha de mimo. Meu tio criou um vitelo e prometeu diante da prole - A sua invocação será, quando na madura idade adulta, ainda mais aliciante que a atribuída pelo meu cunhado à formosa ilha defronte da nossa instância. Muita gente quis saudar e bendizer da deliciosa. No fundo, a insula acabou por ser para todos da cercania uma extraordinária pousada de cobiçado deleitamento. Uma réplica de escarlata cintura de Dona Ginga, com o chapéu do rei Mandume, decalcado em todas as dezanove curvas do Monte Leba, tal que a aclamada e merecida Ilha de Mussulo, em Luanda. Uma terra de todas as palpitantes pulcritudes, como a distante Ilha de Niassa, de revoada e de filtrado devaneio, em Moçambique. Um outro tio da quinta de Gulungo Alto, por explosão de fulminante simpatia pessoal e familiar, estando de acordo com o ponto de vista do seu primo, em Mocímboa da Praia de Cabo Delgado, depois de acertar o passo ideológico com minha tia, residente em Água Izé de São Tomé, agilizou o envio de uma carta a perguntar se tudo estava airoso à volta da fascinante e também chamada a Ilha de Sua Majestade.

Toda a populaça falava da vizinha mais aconchegante da minha vida. Pois lá, a noite não criava escuros do tamanho do universo nem a sombra de montanhesca e descomunal envergadura, como em torno da tumba de mortalha, aziaga e temerata sobre a couraça do ser humano. O manso sol, quando chegava, emanava uma ramagem, com a brasa de ternura e de cálida igualdade. E eu que, na verdade, mais admirava a fulgurosa huri de preito, ninguém me quis ouvir, a propósito da nominação que pretendia endereçar ao meu enternecido fetiche d’olho. O vitelo, depois de grande e vacinado, gostou da sonora invocação, mas numa guinada de rebuscada gentilidade, preferiu que fosse rebatizado com a estrosa apelação de Mato Adentro, o alegrete de provento da minha tribo. Meu pai ficou amuado e algo encrespado. Mandou aplicar um par de chibatadas ao rebelde do animal. Meu tio Augusto, a residir em Colinas do Bué da Guiné Bissau, para mostrar serviço ao nível do humanismo e para provar que era um engajado cosmopolita e tolerante, resolveu argumentar que o senso da alimária, por vezes, pode ser muito mais agudo e aprimorado que o do homem.

José de Carvalho, o maior vulto da ciência e da cultura, nos primórdios do século vinte da nossa era, o emblemático José de todas as candeias, o mais nitente crioulo e orador do timbre de Demóstenes da  Ribeira de Candura, do Arquétipo dos Anjos e da província daquele tempo, por ter sido um valente e aguerrido lutador em prol da ilha em referência e entusiasta participante do seu progresso, ficou escandalizado, porque aproveitou para avisar – O meu cavalo terá o nome que escolher e pode até renunciar ao de batismo, mas no couro dele nenhum marmanjo terá coragem para zimbrar, enquanto eu tiver folego no peito, ares suficientes na caixa ressonante e nas narinas, com o  pé na esteira de múltiplos caminhos, com poderes para malhar nos pacóvios da comarca.  E protestou o principal sage nas paragens da mestiçagem - Arre! No meu amigo e companheiro de jornada ninguém mexe-. Assim, mandou soltar o bicho das amarras do meu pai e garantiu – Bater em ti, oh minhas asas da aventura! Não, só por cima do meu cadáver -.

Como era um ingente assimilado, polido e sobejamente respeitado, ninguém se adiantou na fileira de mofinos e bacocos, para o deter ou obriga-lo a abjurar. E a pulcra pupila do meu imo, sendo mel dos meus enternecidos olhares de menino, tinha a sacra destinação de ser a minha melhor e destacada confidente, sem lhe dirigir uma única palavra. A ilha do Laje, dos Évora, dos Spencer e dos Silvas e Tavares ainda existe e a sua mística também. Ela não exibe a fervilhante fadiga da anciã Ecbatana, do morto paraíso e dos assinalados artefactos, nem a púdica verdura de São Tomé e Príncipe e da cerrada floresta de Maiombe ou da estreita terra de esperança de Norberto Tavares e da Serra de Malagueta de Cabo Verde, mas pula pela vida e vai em breve ser o excrescente pulmão de alívio, de turismo e pacifismo do país, o cartão de visita da nossa desejosa gente de bem.

...

*A torcer por PALOP sempre

 

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Comentários

Soares
16 dias atrás

Pobresa , palavra que precisa sair nosso dicionário.

Miranda
20 dias atrás

Boa sorte

Terra
11 dias atrás

Mesmo verdade roupa sujo tem que ser lavado dentro da casa para os que não sabe o que fala,

Pub-Reportagem

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