terça-feira, 28 julho 2026

Por todo aquele verão

 

Não me fui; não me iria. Esperamos um bocado. Ligaram, ligaram. Detalhei, detalhei o caminho até nós. Já irritado, cumpri o dever de ficar. Chegaram os parentes. Saltou o tio. Agradeceu-me muito em nome do “senhor” (com maiúscula). Cansado, não contrapus um único som. Aí, saltou a prima. Era um encanto. Com graça e sabedoria elucidou as razões celestiais de eu estar ali. Então, estive convertido, por todo aquele verão.

 

Olho, mas não falo nada por uns instantes. Por fim, abaixo o vidro e pergunto se há necessidade de ajuda. Ouço que não, que está tudo bem. Respondo com tranquila firmeza: “Olhe, eu não vou sair do carro sem a sua permissão; se a senhora necessita de auxílio, diga, então eu fico... Se disser para eu ir embora, eu me vou. Mas... pense bem antes de responder”. Logo veio: “Em nome de ‘deus’ (suponho que haja usado maiúscula), me ajude”.

Desembarquei, permaneci quieto por um instante, olhei para a mulher, sorri e falei: “Desculpe, mas nós estamos em um impasse: a senhora quer que eu a ajude em nome de deus; eu me disponho a ajudá-la, mas por modesta solidariedade humana. Não quero intermediar interesses divinos, isso sempre acaba em briga... Até em guerra”. Com olhos arregalados, questionou com explícita censura: “O senhor não tem religião?”

Dei de ombros e disse: “Olhe, a senhora acha mesmo importante ter uma?” Aí, confesso, a resposta me surpreendeu: “Ai!, o ‘senhor’ (seguramente, ela usou maiúscula) escreve mesmo por linhas tortas: mandou-me um pecador”. Mas me refiz: “Bem, uma pessoa que crê tem sempre uma primeira tarefa: levar a ‘palavra’; converter o incréu. Então, deixamos o carro como está porque, parece, a obra é sua: a senhora é que tem que me socorrer”.

O susto agora foi dela: “Será?!” Mas nisso percebo que no banco de trás do automóvel dormia uma criança. Fui olhar a placa do carro. Estávamos nas praias de Santa Catarina, ela vinha do interior do Rio Grande do Sul. Manifesto minha repreensão: “Mas a senhora está vindo de muito longe, sozinha com uma criança, e a estas horas da noite?!” A mulher não titubeou: “Quem confia no ‘senhor’ (claro, com maiúscula) não tem o que temer”.

Meio irritado, meio divertido, forcei uma cara séria e intimei-a: “A senhora pecou de modo feio há pouco tempo, não foi?” A mulher me devolveu outra interrogação: “Por quê?” Falei com severidade: “Oras, por quê?! Porque o seu deus acaba de quebrar o seu carro e mandou um sujeito que não entende nada de mecânica para ajudar. Quem sabe a senhora faz umas orações e “ele” mesmo conserta? Sou inútil aqui. Vou indo”.

As coisas vieram aos termos terrenos. A mulher implorou: “Por favor, não me deixe aqui”. Vingado, suavizei, mas continuei na Terra: “Olha, um humano decente jamais a abandonaria nesta situação; como posso ajudá-la?” Esclareceu, agora sem apelos ao divino: “Meus familiares me procuram... Eu não conheço aqui, e antes que pudesse explicar onde me encontro, fiquei sem bateria”. Liguei aos parentes, expliquei, prometi não me ir.

Não me fui; não me iria. Esperamos um bocado. Ligaram, ligaram. Detalhei, detalhei o caminho até nós. Já irritado, cumpri o dever de ficar. Chegaram os parentes. Saltou o tio. Agradeceu-me muito em nome do “senhor” (com maiúscula). Cansado, não contrapus um único som. Aí, saltou a prima. Era um encanto. Com graça e sabedoria elucidou as razões celestiais de eu estar ali. Então, estive convertido, por todo aquele verão.

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Comentários

Soares
16 dias atrás

Pobresa , palavra que precisa sair nosso dicionário.

Miranda
20 dias atrás

Boa sorte

Terra
11 dias atrás

Mesmo verdade roupa sujo tem que ser lavado dentro da casa para os que não sabe o que fala,

Pub-Reportagem

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