terça-feira, 28 julho 2026

Romantismo é outra coisa, viu?

 

O “romântico” atual trai o Romantismo. É um simplório movido por costumes, ignora as causas de certos cerimoniais, é alienado do surgimento e manutenção de determinados valores, da função dos aparelhos ideológicos. O romântico genuíno é o exaltado contestador social, o ativo crítico político. O “romântico” dos nossos dias está aí, sonhando com as pautas do pequeno burguesismo, cumprindo a ética do sistema dominante. O romântico autêntico é o antiburguês por excelência: é conflitivo, radical; é antagonista ao estabelecido, às convenções, que considera hipócritas.

 

Essa prestigiada versão popular do Romantismo é desvirtuamento de uma manifestação estética e literária importante na Tradição Ocidental. O Romantismo é um movimento cultural desencadeado por intelectuais e artistas na passagem do século XVIII para o XIX que rompe com as regras clássicas de composição e expressão; institui-se como superação das formas rigidamente amarradas de outro movimento, o Classicismo. O romântico abandona as obrigações sociais e as formatações racionais, defende o individualismo, o lirismo, a sensibilidade, a originalidade, a imaginação.

O sentimento, para o romântico, era expresso pela liberdade, pela ousadia, pelo desregramento, pelo subjetivismo, pelo interesse pelos mais variados assuntos, pela vida como aventura descomprometida. Em suma, o romântico era um rebelde que desprezava as tradições enquanto limitadoras e as valorizava enquanto criações espontâneas. Só não era um ser antissocial porque desconsiderava de tal forma as convenções sociais que nem se daria ao trabalho de combatê-las. O romântico, antes de se preocupar em dar batalha à Sociedade, preferia viver à sua margem.

Desconheço a origem da ideia de que para ser romântico tem que ser piegas, exacerbado em sentimentalismo. Aliás, esse assunto é coisa que se estuda lá no ensino médio e, ademais, é tema facilmente encontrável na internet. Não estou abordando nada tão esotérico, portanto. Quero dizer: não é difícil saber o que é Romantismo. Creio que o cinema meloso dos anos 1950 e as novelas de rádio e TV, pela abrangência que tiveram e têm, fizeram vingar e alimentam essa noção de que ser romântico é fazer-se sentimentalista nas emoções que nascem da convivência amorosa.

O romântico, na sua origem, é o inverso disso; elege uma condição existencial, digamos, triste. Sua característica é ser pessimista, melancólico, personalista, crítico social. Não imagino, portanto, como um romântico poderia submeter-se aos jeitos novelescos que os anseios mais vulgares lhe pretendem atribuir. Creio que as pessoas confundem a fugacidade das declarações amorosas com a condição existencial de ser romântico, misturam o despegar-se da racionalidade como limitação à criação intelectual e artística com o apegar-se a ritualismos propiciatórios de afeição.

O “romântico” atual trai o Romantismo. É um simplório movido por costumes, ignora as causas de certos cerimoniais, é alienado do surgimento e manutenção de determinados valores, da função dos aparelhos ideológicos. O romântico genuíno é o exaltado contestador social, o ativo crítico político. O “romântico” dos nossos dias está aí, sonhando com as pautas do pequeno burguesismo, cumprindo a ética do sistema dominante. O romântico autêntico é o antiburguês por excelência: é conflitivo, radical; é antagonista ao estabelecido, às convenções, que considera hipócritas.

Compõe, ainda, essa corrente de pensamento, com efeitos no presente, o credo na pureza da natureza, quase lhe emprestando um caráter de ser que sofre e reage, valorizando o “bom selvagem” corrompido pela maus da “vida civilizada”. Com sequelas, também, na atualidade, está a condição em que se punha a mulher: admirada, “cuidada”, objeto “puro” a ser cultuado e pelo qual seria belo sofrer. Essa condição atribuída ao feminino tornou-se uma armadilha que remeteu a mulher para a vida privada, lugar da moça “feita para casar”, tendo como destino o reino do lar.

O Romantismo “raiz”, contudo, é interessante: valorizou o sentimento e elogiou as emoções como nenhum outro movimento sociocultural o fez. Agora, esse “romântico” de folhetim que reduz emoção ao conforto do institucionalizado, do apropriado por manuais de conduta, a isso eu nomeio com o que o Houaiss designa cafona: “que ou o que revela mau gosto, pouca sofisticação”, ou com o que o Aurélio denomina brega: “deselegante”. É, Romantismo é mesmo outra coisa, viu? O tema é instigante e facilmente se encontram bons textos a respeito. Se eu não convenci, convido a conferir.

 ....

* Doutor em Direito pela UFSC.Psicanalista e Jornalista.

Ocultar formulário

5000 caracteres restantes


Colunistas

Léo Rosa de Andrade
Léo Rosa de Andrade
21 Jul. 2026
SOBRE ESTAR SÓ
Sei que há muito palpite sobre a solidão. Altemar...
José João Neves Barbosa Vicente
José João Neves Barbosa Vicente
21 Jul. 2026
 “TUBARÕES AZUIS”: A REPRESENTAÇÃO DE UM POVO
A atuação dos “Tubarões Azuis” contribui para inspirar crianças,...
Alexandre Vieira Fontes
Alexandre Vieira Fontes
21 Jul. 2026
Justiça social, racionalidade orçamental e o papel...
A vitória eleitoral de Francisco Carvalho e da plataforma...
Péricles Tavares
Péricles Tavares
12 Jun. 2026
Carta Aberta ao novo Primeiro-Ministro:Responsabilidade de unir...
Estamos convictos de que, sob a sua liderança, Cabo...
Domingos Landim de Barros
Domingos Landim de Barros
03 Jun. 2026
Radiografia da minha eira
Algo que, com todo o preito, se assemelha à...

Comentários

Soares
16 dias atrás

Pobresa , palavra que precisa sair nosso dicionário.

Miranda
20 dias atrás

Boa sorte

Terra
11 dias atrás

Mesmo verdade roupa sujo tem que ser lavado dentro da casa para os que não sabe o que fala,

Pub-Reportagem

publireport