terça-feira, 28 julho 2026

Um aedo-tributo ao meio século de livre caminhada da nossa gente – Terceira e última parte

 

À hora marcada para a ímpar ocorrência, com a precisão de um relógio suíço, todos estiveram juntos e de palpitante coração, com dísticos e cores de certeza no sucesso da máscula empreitada. Os dignitários e populares levantaram o braço, bateram as palmas e em uníssono cantaram - «Viva nos Hespéria! Nos tchon e pa nos povu. Abri bu folgu, bu grita bu liberdadi. Comba, comba Cabral. Comba, combatente di nos tera». Entretanto, das imediações do Curral de Burro e do trágico dodó da era da Assistência e sucumbência, ouviu-se a voz de um desbocado reacionário, bastante desagradado com a festança e solenidade da cerimónia, agindo na contramão de inegável factualidade e de toda a empáfia e autoestima da corte de creme balalaica, disparou o seu azedo impropério da traqueia - «Bazófia para quê, para estragarem a terra, hem?». Desconchavo de um quiçá celerado extraterrestre que, de súbito, desapareceu no esconso lamaçal de ignorância, seguido de ruidosos apupos e deboche correlativo de uns aguerridos militantes do entourage.

 

 

Dotado de uma exímia cultura urbana, tratava os meandros de uma sinuca de bico com pinça e com mestria. O nato diplomata das ilhas trocou dois dedos de conversa com o maioral das nossas deleitáveis pretendidas e tudo ficou resolvido. Por mérito próprio e num ápice de instante. Fizemos a mesura e pedimos a bênção de retirada. Retornamos ao nosso ponto de partida. No regresso, como havia chovido a cântaros no Chão de Papiro, o meu esfuziante compatrício de caserna torceu o pé direito, numa zona pantanosa e começou a claudicar. O régulo local e persuasivo bom caudilho foi logo em nosso auxílio. Levou na mão um amuleto (emplastro de uma planta regeneradora e altamente prodigiosa). 


Pôs a mezinha em cima da parte inchada do pé de J, garantindo folgadamente - «Daqui a três horas estás a cem por cento em forma. Com esta erva mirabolante já curei vários camaradas do tempo da luta, incluindo o tio Demba, que foi o guia primacial da nossa fabulosa revolução». Depois de se arvorar em sagaz e afável médico, o nosso anfitrião colocou de parte a minudente bazófia acerca da leges artis e afastou-se de nós, mas sempre a seguir-nos com rabadela de olhar de precavida curiosidade.  A caminho do quartel, J voltou-se para mim, um tanto inebriado e exclamou - «Che! Como é possível, mano Fragoso? Saber os nossos nomes e adivinhar as nossas preferências, na questão da barra de saias… Não, isto é demais!». Pensei um tanto e simplesmente rebati - «Estás em África profunda dos contos de mamba preta e de rebuscadas peripécias do velho irã, meu caro irmão». Chegamos à unidade, J embrulhou-se na cama, arrufou ficticiamente o semblante e astutamente me picou - «Agora, paga-me as dívidas, seu malandro!». 


Só para testar a minha capacidade de argúcia, porque J, um enormemente desprendido, jamais me cobraria fosse o que fosse. Aliás, em boa verdade, o cativante rapaz de burgo fazia de santo padroeiro da nossa radiante companhia e de todas as minhas hostes atribuladas. Não vacilava nem titubeava a sair em campo aberto, para assegurar a defesa do seu amigo de máxima confiança. Assim, olhei para ele e para o graduado de serviço, enredei uma falácia em como o meu compincha da missão tinha febre, reforçando a ideia junto da hierarquia - «Quente mesmo, camarada oficial-dia». Sendo véspera de um feriado, estava tudo calmo no quartel, o magnânimo tenente viu J a transpirar e não desconfiou das nossas fugas e desvio de percurso às bolanhas do arroz e do caju. J, porém, apenas suava em virtude de bastante exaurido e esmagado por um calor abrasador, que se fazia sentir na orla portuária, nas instalações da Marinha. Graças a Deus, nada de maior aconteceu ao meu fraterno e denodado camarada. Tal como o «homi grandi» havia feito premonição, jano-Jano recuperou-se da lesão na mesma noite. De manhazinha, o Pupilo de todas as proezas e maravilhas estava aos pulos na parada, fresquinho, justamente igual à aura de alface ou ambrósia seletiva à mesa de divodigno acepipe, bem ao estilo que sobejamente o conhecíamos.  


Em Remanso de Saudade dizia-lhe a brincar - «J, eu sou um afamado fugitivo dos fins-de-semana e tens que me fazer a cobertura com unhas e dentes. Podes tirar o curso de mentira, porque só eu confio em ti». Ao que ele, de relance e a mirar-me no buço de ingenuidade, assumia ares de batida cumplicidade e resmungava - «Sim, sou o teu advogado. Fogo!  Agora, até tu com testa-de-ferro, seu macabeu!». Importante foi que ele nunca deu as minhas causas por perdidas. Pupilo é daquele amigo que vale a pena ter em mente e preservar: eficaz, sincero, prestativo e subtil. Inúmeras vezes tomava conta da minha indústria sem eu saber, pois quase sempre nas minhas costas. Noutras alturas, manifestava sinais de bastante preocupação. Ficava angustiado com a falta de lisura na relação de amizade. Abrenunciava a traição e desabafava comigo - «Meu caro, aleivosia é uma coisa hedionda e suja. Não viste como acabou o nosso venerável Tio Demba?». Patriota de coturno e de firme convicção, mas o que tornava J alguém extraordinário era o seu castiço voto de lealdade inabalável, quer em relação aos símbolos nacionais, quer no tocante aos seus coevos da aventura. 


Não era capaz de urdir intrigas para beliscar a honra dos seus colegas. Eu concordava com ele, no quesito da praga detestável e mui em voga à época no continente. Punha-me apreensivo a escutá-lo. Tínhamos sido o primeiro contingente enviado à mágica Galé, para vir depois, em apoteose, alevantar a bandeira de carlinga e cantar o hino inaugural da mítica odisseia. Tal como previsto pelas entidades oficiais, assim aconteceu. Entramos pelo líquido enfiamento de uma raia e viemos até o piso de batuco de Nha Bibinha e Nácia Gomi. Por volta das dez de um dia de esteio a consabida proclamação. O céu dispôs-se claro e promissor, parecia cálido e mais próximo da gente. Na data, todas as distâncias se estreitaram e convergiram na Vargem, o palco irrepetível da sacra cerimónia.  Da diáspora fraterna, das ilhas e dos confins do mundo amigo e solidário. Do palanque da efeméride via-se a efígie de uma figura modelar e carismática sobre a linha do horizonte. Tinha capa irreverente sobre as vestes e sumbia na cabeça, com as lentes do devir a meio da fronte. 


À medida que o sangrado lenço de sacrifício ia subindo, a lenda de inexpugnável referência punha-se a alar e a enlevar-se nas alturas, acenando-nos ao ritmo do canto então entoado na livre terra. Uma vez o mosaico-emblema no topo de majestade a esvoaçar, a perene sumidade acomodou-se solene e sublimemente nos recônditos da nuvem. Era o Primaz de toda a Hespéria e da Galé, em incensada transmutação de despedida. Em baixo, de um lado, coto de uma vela; doutro lado, o sol inteiro com auréola e empolgado no firmamento, com todo o seu esplendor e manancial de orientação, de inderrogáveis incumbências para cumprir. Dos ares do infindo céu, uma águia inspiradora de Concord empreendeu um derradeiro, fulminante, atabalhoado, acrobático e aclamado voo letal da nossa parte, dando um espetáculo memorável, nunca visto até a época. Mui sombrio e triste embora. 


De seguida, desceu para espuma da onda, com duas asas encolhidas, com aduncado e amorfo bico, já com garras impotentes e sem auras de mandona. Parou um pouco na lâmina da água, quiçá com nostalgia dos áureos tempos de vacas gordas. Voltou à tona, elevou-se novamente, ficou de bico para baixo e finalmente mergulhou a quilha no fundo do nosso mar, para nunca mais voltar, depois de tanto extenuado tempo de rapinagem.  Já no magnificente adro da nossa cerimónia, foi fascinante ver o J, de pé, em frente ao mastro de rejubilo, carregado de ungidas emoções e com visível sensação de nitente orgulho pátrio. Sendo um ícone castrense de inigualável acutilância e adoração, o seu aprumo e a sua entrega ao ideal da nova seara de eleição eram simplesmente inexcedíveis e por isso inatacáveis. J colocou o nédio olhar de praça na joia de coroa durante todo o glorificante momento de subida, mesmo quando encalhada a meio do trajeto. 


Da tribuna de honradez, o auriluzente vanguardista da nomenclatura, lançando um lancinante repto aos mancebos em presença, abriu a comissura labial de jubilação, com o mais alvo sorriso à mostra e com balsâmico otimismo, desafiou - «Se os homens não chegam lá, enviamos o mirífico jeito de uma mulher. Pois ela, uma constante parceira da nossa gesta, desde os vibrantes instantes iniciais, está sempre apta a intervir. Já ouviram falar da lendária Titina Silá ou da estrosa combatente, Cármen P’reira?». Nisto, uma esbelta e pulcra citadina desceu a toda brida da inesquecível bancada de epopeia, para ficar na História. Porém, o J, entusiasta e seguro de si, apelou - «Não se preocupem. Ela não tem como me escapulir. Vai ter mesmo que trepar a escadaria da nossa ampla expetativa até o cume do nosso sonho. Foi para isso que o nosso líder imortal, o venerando Pivô de Hespéria e seus confrades na Galé, ingentemente se bateram». E ordenou - «Vá! Solta-te ao vento e deixa de niquices, minha noiva!». Um inequívoco sinal de prontidão, na manhã do dia mais limpo da nossa herdade. 


Se o doirado véu de brinde ouviu ou não a intimação ninguém o soube, mas, mal o J fechou a novel fuça, a ninfa-pupa do nosso esmerado cultivo coletivo venceu o topo de resistência e caminhada. Era divinal observar a pompa tricolor a dardejar afoitamente no pico do zimbório imaginário do ledo povo. Tratando-se de maior fetiche e prerrogativa para um génio militar, como era o caso do J, não me surpreendeu que a mimosa tivesse obedecido às ordens do garboso fã republicano. Nesse dia, camiões e camiões tinham demandado a capital. Vieram da alta e secular noite de trevas, com o galo, a madrugada e a alvorada, com a fé na aurora rósea para todas as ilhas da antiga e reiterada submissão. 


À hora marcada para a ímpar ocorrência, com a precisão de um relógio suíço, todos estiveram juntos e de palpitante coração, com dísticos e cores de certeza no sucesso da máscula empreitada. Os dignitários e populares levantaram o braço, bateram as palmas e em uníssono cantaram - «Viva nos Hespéria! Nos tchon e pa nos povu. Abri bu folgu, bu grita bu liberdadi. Comba, comba Cabral. Comba, combatente di nos tera». Entretanto, das imediações do Curral de Burro e do trágico dodó da era da Assistência e sucumbência, ouviu-se a voz de um desbocado reacionário, bastante desagradado com a festança e solenidade da cerimónia, agindo na contramão de inegável factualidade e de toda a empáfia e autoestima da corte de creme balalaica, disparou o seu azedo impropério da traqueia - «Bazófia para quê, para estragarem a terra, hem?». Desconchavo de um quiçá celerado extraterrestre que, de súbito, desapareceu no esconso lamaçal de ignorância, seguido de ruidosos apupos e deboche correlativo de uns aguerridos militantes do entourage. 


Estes, furiosos ao rubro, não ficaram por meias medidas e desataram a excomungar o penetra indesejado da espirituosa celebração, da pior maneira - «Cale a boca, seu zangado! Oh, oh, julga-se o quê, ó energúmeno de merda?  Vá para o diabo, seu indigesto cu de piolho! Sabujo de duas patas ao pé da lancha de mau agoiro, com a goela cheia de miasma. Oh azarado escaravelho de uma figa!». O escumalho escorraçado e verbalmente atropelado saiu da cena de bola enxuta e cabisbaixo. Com isto, a investidura do nobre Estado foi consumada. E nós, uma data de heróis de quinta linha de obscuridade, fomos recolhidos ao quartel, onde nos serviram um rancho melhorado, em meio a uma frenética charanga militar. Assim, o zénite do dia mais sonhado e aguardado dos nossos eminentes ancestrais, o elemental marco de platina, que aglutina, subordina e dá azimute de leveza a todos os outros itens estelares, chegou ao fim e a nossa vida mudou de rumo. 

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*Na pose de Fragoso Landgrávio

 

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Comentários

Soares
16 dias atrás

Pobresa , palavra que precisa sair nosso dicionário.

Miranda
20 dias atrás

Boa sorte

Terra
10 dias atrás

Mesmo verdade roupa sujo tem que ser lavado dentro da casa para os que não sabe o que fala,

Pub-Reportagem

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