A chegada repentina de migrantes ao enclave espanhol de Ceuta, na semana passada, desencadeou uma nova crise política na União Europeia, expondo as divergências entre os Estados-membros quanto à gestão das fronteiras externas e das políticas de imigração. Esta terça-feira, 4 de Agosto, os ministros europeus da Administração Interna dos 27 reúnem-se por videoconferência, num encontro que deverá evidenciar as diferentes visões sobre a resposta europeia aos movimentos migratórios.
Apesar de as entradas irregulares na União Europeia terem diminuído 37% durante o primeiro semestre de 2026, face ao mesmo período do ano passado, e de a Comissão Europeia assegurar que, desde os acontecimentos em Ceuta, não se registaram novas chegadas a Espanha continental ou ao restante território comunitário, o episódio adquiriu uma dimensão política que ultrapassa a realidade dos números.
A direita e a extrema-direita europeias aproveitaram a situação para reforçar as críticas às políticas migratórias de Madrid, responsabilizando o Governo de Pedro Sánchez pelo episódio. Segundo fontes diplomáticas europeias, Espanha poderá enfrentar o isolamento de uma larga maioria dos Estados-membros durante a reunião, numa posição liderada pela Itália.
Também a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, endureceu o discurso. Numa carta dirigida ao chefe do Governo espanhol, defendeu um reforço da vigilância das fronteiras externas e admitiu o recurso a barreiras físicas sempre que as circunstâncias o justifiquem.
Itália insiste no modelo albanês
Esta terça-feira, 4 de Agosto, os ministros da Administração Interna dos 27 reúnem-se por videoconferência de emergência, num encontro que deverá evidenciar as diferentes visões sobre a resposta europeia aos movimentos migratórios.
Entre os temas em agenda figura igualmente o reforço da Frontex, a agência europeia responsável pela protecção das fronteiras externas. Paralelamente, Roma pretende convencer os restantes parceiros europeus a adoptarem um sistema inspirado no acordo migratório celebrado entre Itália e Albânia.
A iniciativa é apresentada pelo Governo de Giorgia Meloni como um instrumento para acelerar os processos de expulsão de migrantes sem direito a permanecer em solo europeu. Na lista preliminar de países susceptíveis de acolher essas estruturas surgem o Uganda, o Gana, a Tunísia, o Egipto e o Uzbequistão.
Contudo, a experiência italiana continua longe de demonstrar a eficácia prometida. Segundo o Instituto de Investigação Idos e a organização Tavolo Asilo e Immigrazione, apenas 685 migrantes passaram pelos centros de Shëngjin e Gjadër entre 2025 e 2026, quando o Governo italiano previa receber até três mil pessoas por mês.
Os resultados são igualmente modestos no que respeita aos repatriamentos. Apenas 101 migrantes foram efectivamente expulsos, operação que teve um custo estimado de cerca de 495 mil euros. Só em 2026, o funcionamento dos centros representou uma despesa superior a 133 milhões de euros para o Estado italiano.
O futuro depende dos tribunais
Apesar das críticas e dos resultados limitados, Giorgia Meloni mantém o compromisso de prosseguir com o projecto e pretende aumentar a ocupação dos centros até ao início de 2027, coincidindo com um ano politicamente decisivo para Itália, que deverá entrar em campanha para as eleições legislativas.
Mas o futuro da iniciativa poderá não depender apenas da vontade política. Nos próximos meses, o Tribunal de Justiça da União Europeia deverá pronunciar-se sobre a compatibilidade do acordo entre Itália e Albânia com o direito comunitário. Também o Supremo Tribunal de Cassação italiano terá de decidir os recursos apresentados pelo Ministério da Administração Interna contra as decisões de vários tribunais que bloquearam a transferência de migrantes para território albanês.
A Semana com RFI

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