Quatro mulheres e dois homens concorrem ao cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Os seis candidatos reúnem-se esta quinta-feira, 23 de Julho, em Nova Iorque, para um debate público, transmitido em directo, que constitui uma fase importante no processo de escolha do sucessor de António Guterres.
A corrida reúne quatro mulheres e dois homens, sendo que, pela primeira vez, existe uma forte expectativa internacional para que uma mulher venha finalmente a ocupar o cargo máximo da organização, algo que nunca aconteceu desde a criação das Nações Unidas, em 1945.
A corrida à sucessão de António Guterres na liderança das Nações Unidas entrou numa fase decisiva, com seis candidatos oficialmente a concorrer ao cargo de secretário-geral, cujo mandato tem início em Janeiro de 2027. Num contexto marcado por guerras, tensões geopolíticas, dificuldades financeiras e uma crescente crise de credibilidade da organização, o futuro líder da ONU enfrenta o desafio de restaurar a confiança dos Estados-membros e reforçar o papel da instituição na governação global.
Ao fim de dois mandatos consecutivos, António Guterres deixa a chefia das Nações Unidas a 31 de Dezembro deste ano, encerrando uma década à frente da organização. A escolha do sucessor decorre num dos períodos mais delicados da história da ONU, confrontada com conflitos armados prolongados, bloqueios frequentes no Conselho de Segurança, limitações orçamentais e críticas quanto à capacidade de responder às crises internacionais.
Os seis candidatos apresentam-se esta quinta-feira num debate público realizado na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, antes de o Conselho de Segurança iniciar formalmente o processo de selecção. A discussão, transmitida em directo, pretende dar a conhecer aos Estados-membros, funcionários da organização e representantes da sociedade civil as prioridades e a visão de cada concorrente para o futuro da instituição.
Segundo a presidente da Assembleia Geral, Annalena Baerbock, o próximo secretário-geral deve combinar capacidade administrativa com liderança política, defendendo os três pilares fundamentais da ONU: paz e segurança, direitos humanos e desenvolvimento sustentável.
A corrida reúne quatro mulheres e dois homens, sendo que, pela primeira vez, existe uma forte expectativa internacional para que uma mulher venha finalmente a ocupar o cargo máximo da organização, algo que nunca aconteceu desde a criação das Nações Unidas, em 1945.
Michelle Bachelet
A antiga Presidente do Chile e antiga Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos é uma das figuras mais conhecidas da corrida. Sobreviveu à repressão da ditadura de Augusto Pinochet, experiência que marcou a carreira política.
Durante o período em que liderou o Alto Comissariado para os Direitos Humanos, enfrentou fortes críticas da China após a divulgação de um relatório sobre alegadas violações dos direitos da minoria uigur na região de Xinjiang. Nos Estados Unidos, sectores conservadores contestam as suas posições em defesa dos direitos reprodutivos.
Na sua candidatura, Michelle Bachelet defende que a sua experiência política e diplomática lhe permite enfrentar um sistema internacional confrontado com desafios "sem precedentes". Inicialmente apoiada pelo Chile, perdeu esse respaldo após a mudança de governo em Santiago, mantendo, contudo, o apoio do Brasil e do México.
Carolyn Rodrigues-Birkett
Actual representante permanente da Guiana junto das Nações Unidas, Carolyn Rodrigues-Birkett foi ministra dos Negócios Estrangeiros do seu país antes de assumir funções diplomáticas em Nova Iorque.
A candidata considera que a organização perdeu parte da sua credibilidade ao longo dos últimos anos, sobretudo porque a opinião pública tende a avaliar o desempenho da ONU através da sua capacidade para prevenir guerras e resolver conflitos.
Defende uma organização mais presente na gestão directa das questões de paz e segurança, em vez de depender exclusivamente da iniciativa das grandes potências.
María Fernanda Espinosa
A antiga ministra dos Negócios Estrangeiros e da Defesa do Equador, María Fernanda Espinosa possui igualmente um percurso ligado à diplomacia ambiental, ao desenvolvimento sustentável e à protecção da Amazónia.
Foi presidente da Assembleia Geral das Nações Unidas entre 2018 e 2019, experiência que lhe conferiu um conhecimento do funcionamento interno da organização.
A candidata considera que chegou o momento de uma mulher assumir a liderança da ONU, classificando essa eventual escolha como uma questão de justiça histórica. Paralelamente, alerta para a fragilidade financeira da organização, defendendo reformas profundas que permitam garantir a sua sustentabilidade e relevância futura.
Rafael Grossi
Director-geral da Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA) desde 2019, o diplomata argentino tornou-se uma das figuras mais visíveis da diplomacia internacional devido ao acompanhamento dos programas nucleares do Irão e à monitorização da central nuclear ucraniana de Zaporíjia, ocupada pelas forças russas desde o início da invasão.
Na sua candidatura, Rafael Grossi propõe um regresso às prioridades fundadoras das Nações Unidas, colocando a prevenção da guerra no centro da acção da organização. O seu perfil técnico e experiência na gestão de crises internacionais fazem dele um dos nomes mais apontados como favorito por vários analistas internacionais, embora sem consenso.
Rebeca Grynspan
Economista e antiga vice-presidente da Costa Rica, Rebeca Grynspan dirige a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD).
Foi uma das principais responsáveis pelas negociações da chamada Iniciativa do Mar Negro, acordo alcançado em 2022 para permitir a exportação de cereais ucranianos durante o conflito com a Rússia.
Na sua visão para a ONU, destaca a importância de preservar os princípios inscritos na Carta das Nações Unidas, considerando que o actual contexto internacional exige maior cooperação e diálogo entre os Estados.
Macky Sall
Único candidato africano, o antigo Presidente do Senegal apresenta uma visão centrada na ligação entre paz, desenvolvimento económico e combate às desigualdades.
A sua candidatura é patrocinada pelo Burundi, que exerce a presidência rotativa da União Africana, conta também com o apoio formal do Senegal.
Contudo, diversos observadores consideram que o reduzido apoio obtido junto de outros países africanos pode limitar as suas possibilidades de sucesso.
Reforma, financiamento e legitimidade
Independentemente do vencedor, todos os candidatos convergem num ponto essencial: a necessidade de reformar profundamente as Nações Unidas. A organização enfrenta uma das maiores crises financeiras da sua história, agravada pelos atrasos nas contribuições obrigatórias de vários Estados-membros e pela crescente pressão dos principais financiadores, nomeadamente os Estados Unidos, que defendem uma concentração da actividade da ONU nas questões da paz e segurança.
Outros países insistem, contudo, que reduzir a organização à gestão de conflitos significaria comprometer o seu trabalho em áreas como os direitos humanos, a ajuda humanitária, a saúde, o combate às alterações climáticas e o desenvolvimento sustentável.
Embora a Assembleia Geral tenha um papel formal na nomeação do secretário-geral, a decisão efectiva pertence ao Conselho de Segurança. Os quinze membros do órgão vão realizar uma primeira votação indicativa à porta fechada, seguindo-se outras rondas até surgir um candidato capaz de reunir, pelo menos, nove votos favoráveis sem sofrer o veto de qualquer um dos cinco membros permanentes: Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido.
Este mecanismo faz com que a eleição dependa não apenas das qualidades dos candidatos, mas também do delicado equilíbrio diplomático entre as principais potências mundiais.
A Semana com RFI






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