No centro de Bissau, o Hotel Coimbra é uma das casas mais antigas da cidade. Acolhe turtistas, viajantes, empresários e jornalistas de passagem. A sua localização privilegiada no coração da capital - entre a praça dos Heróis, onde se situa o Palácio Presidencial, e o porto de Bissau - numa das esquinas da Avenida Amilcar Cabral, confere ainda mais visibilidade a este local já muito conhecido de Bissau. Abriu as portas no início dos anos 2000, depois da guerra civil. A 26 de Novembro deste ano, no dia do alegado golpe de estado, ouviram-se os tiros junto ao palácio presidencial, a poucos metros, no final da rua. Como tantos outros guineenses, César, gerente do Hotel Coimbra, viveu estes acontecimentos com muita suspição.
O que eu penso sobre isto tudo? Para mim, isto foi uma coisa bem organizada e não se trata de um golpe de Estado. Foi organizado para beneficiar alguns grupos de pessoas, principalmente quem estava no governo ou quem estava na presidência. Isto não é bem um golpe de Estado, não. Eu sempre nego isto. Parece mais uma forma de demonstrar que eles querem ficar no poder.
A situação é incerta, e os clientes fazem-se raros. A instabilidade política e a incerteza dos próximos dias afectam os negócios. Desde 26 de Novembro, regista-se uma baixa de 85% nas reservas do Hotel Coimbra, 25 pessoas anularam a sua estadia.
Houve muitos cancelamentos... Em termos de economia, isto vai ter muitas consequências. Quase não temos ninguém no hotel. Todo o mundo foi embora. A economia do país pode ir abaixo porque não há nenhum financiamento. Os organismos internacionais vão embora. Isto é certo. E num pais que não tem recursos.... que vive da ajuda da comunidade internacional... Sem esta ajuda externa, como é que o país pode andar? Não pode.
O famoso mercado artesanal de Bissau é um dos outros núcleos turísticos da capital. Com as suas ruas em terra batida, cobertas por árvores, deambula-se entre ateliers de artesanato local, compra-se ou admira-se as estátuas de madeira, os tecidos coloridos, os balafoms e outros instrumentos de música. Tidjane, vendedor, está sentado e olha para as ruelas meio-vazias do mercado.
Está muito calmo neste momento. Naquele dia do conflito houve muito barulho, as pessoas foram se refugiar. Muitos foram para as suas aldeias. Não há muitos turistas neste momento, porque alguns se refugiaram, outros voltaram para a Europa. Mas penso que a situação vai normalizar. Já está mais calmo, mais controlado.
No mercado há quem sirva comida. Augusta Gomes, cozinheira, é dona de um estabelecimento com cinco mesas onde os turistas costumavam almoçar, beber um sumo de cabaceira ou de veludo, especialidades de cá. Mas aqui também o espaço está meio-deserto.
A cozinha também faz parte da arte local. Mas neste momento estamos a trabalhar a meio gás... Desde que começaram essas complicações quase tudo está parado. Não estamos a fazer nada. Estamos a vir aqui só porque temos que vir. Mas não estamos a ganhar nada.
Desde o alegado golpe de Estado, e após dois dias de paralisação total — durante os quais comércios, restaurantes, instituições e tudo o resto receberam ordens para permanecer fechados —, a vida ainda não voltou à normalidade. Augusta Gomes admite sentir-se apreensiva quanto ao futuro.
Estou muito preocupada. Aqui na Guiné, vivemos daquilo que ganhamos diáriamente. Se tudo está parado, o que é que vamos fazer? Vivemos com menos de 1 dólar por dia. Temos crianças que já não vão à escola. O nosso negócio está estragado. Naquele dia em que se ouviram os tiros [no palácio presidencial], tivemos que sair depressa, deixámos tudo aqui e a comida estragou. Todos saíram fugindo.
E nós, mulheres, estamos a batalhar no dia-a-dia para a nossa sobrevivência. Só posso pedir a Deus para que tranquilize o coração dos homens. E que olhe para nós, mulheres. Que os homens nos deixem um pouco tranquilas, que nos deixam trabalhar. Se não trabalharmos, não comemos, não sustentamos os nossos filhos. Está tudo perturbado, desde aquele dia que eles dispararam tiros no palácio presidencial? Começaram a assustar as pessoas. Ninguém sabe porquê. Até hoje ninguém tem explicação para o que aconteceu.
Na universidade Colinas de Boé, no norte de Bissau, o economista José Nico Dju lecciona aulas em três turmas diferentes. As aulas retomaram, quatro dias depois do golpe de estado, e a situação do país é obviamente tema que se debate aqui na sala de aulas. Mas tanto os alunos como o professor se questionam sobre o futuro que a Guiné-Bissau tem pela frente.
Isto é muito preocupante. O turismo representa uma grande vantagem para a Guiné-Bissau. Mas devido à situação, as expectativas certamente irão diminuir.
O turismo representava, até agora cerca de 1% do Produto Interno Bruto da Guiné-Bissau, o que não representa uma grande fatia, mas era um sector promissor. E para o economista José Nico Dju, o turismo não resistirá a uma estadia prolongada dos militares no poder.
Com os militares no poder, significa que estamos numa situação de emergência, num estado de sítio, numa situação da anormalidade. Não se pode falar em actividades turísticas num contexto em que o país está a ser governado por militares. As actividades turísticas precisam de estabilidade, e sobretudo de segurança, para atrair turistas. Enquanto o poder não for devolvido a actores políticos civis, o país continua em situação de desconforto.
As relações com os parceiros económicos internacionais poderão deteriorar-se, afectando o volume de negócios, e consequentemente, a taxa de desemprego.
A Semana com RFI







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