Timor-Leste, que assegura desde Dezembro a presidência rotativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), anunciou hoje o cancelamento da missão de bons ofícios da organização lusófona à Guiné-Bissau que pretendia realizar do 18 ao 21 de Fevereiro.
Este anúncio acontece num contexto de mal-estar instalado entre o poder da Guiné-Bissau e as autoridades timorenses.
Na passada quarta-feira, após um encontro com o Presidente Ramos Horta, o chefe do governo de Timor-Leste considerou que a desestabilização militar de Novembro, na Guiné-Bissau, demonstra que o país "é um Estado falhado" e sublinhou que é necessário o país em termos de desenvolvimento da democracia e direitos humanos.
Xanana Gusmão recordou ainda que na sequência do golpe de Estado de 2012, Timor-Leste apoiou durante vários anos a Guiné-Bissau na organização de eleições.
“Fomos ajudar a montar todo o sistema, nomeadamente a CNE, para realizarem as primeiras eleições democráticas na Guiné-Bissau. Mas depois disto, voltar agora com um golpe militar ou golpe de Estado, já não falamos de Estado frágil, falamos de Estado falhado”, declarou o chefe do governo timorense.
Na óptica do Ministério guineense dos Negócios Estrangeiros, “as declarações revelam falta de dignidade e de postura política e moral” de Xanana Gusmão “para avaliar a realidade” institucional do país.
“Xanana Gusmão, tal como José Ramos-Horta, possui um historial de controvérsias públicas que fragilizam a autoridade com que se pronunciam sobre a governação de outros Estados”, acrescenta o comunicado governamental.
Bissau considera “difícil de compreender” como é que figuras desse perfil assumem responsabilidades de liderança em organizações como a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
“A Guiné-Bissau não aceita qualquer tentativa de humilhação pública, estigmatização política ou desqualificação institucional, sobretudo quando proveniente de um Estado membro da CPLP”, diz ainda o governo guineense.
Desde a desestabilização de 26 de Novembro de 2025, Timor-Leste tem sido uma das vozes mais vigorosas no seio da CPLP na adopção de medidas para marcar a rejeição do golpe.
Timor-Leste assegura desde Dezembro a presidência rotativa da CPLP a titulo provisório, em substituição da Guiné-Bissau que assegurava a liderança do bloco desde Julho.
Depois dos militares tomarem o poder, ficou consumado em poucos dias o divórcio entre as novas autoridades guineenses e os restantes membros da CPLP. Antes mesmo de ser formalmente suspensa da organização, a Guiné-Bissau suspendeu as suas actividades no seio da comunidade em meados de Dezembro.
Discutida de longa data, praticamente desde a altura da desestabilização militar, a data da missão de bons ofícios da CPLP tinha acabado por ser fixada esta semana.
No passado dia 11 de Fevereiro, a presidência timorense tinha anunciado a sua intenção de enviar à Guiné-Bissau entre os dias 18 e 21 de Fevereiro uma delegação composta por 15 elementos de Angola, São Tomé e Príncipe e de Timor-Leste.
Esta missão que devia ser liderada pelo ministro da Defesa timorense, Donaciano Rosário Gomes, tinha em agenda encontros com o ministro dos Negócios Estrangeiros e Cooperação da Guiné-Bissau, com o Alto-Comando militar, com a sociedade civil e com outras entidades.
A Semana com RFI África







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