domingo, 14 junho 2026

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Hantavírus será a próxima pandemia? "É uma situação muito pouco provável"

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O aumento do número de casos de hantavírus tem feito soar algum alarme social e deixado a dúvida: será que estamos perante uma possível nova pandemia? O Lifestyle ao Minuto falou com Raquel Vareda, médica de saúde pública, e Hélder Pinheiro, médico infeciologista, para perceber melhor a situação.

Pelo menos para já, a Organização Mundial da Saúde (OMS) assume que o surto de hantavírus que se desencadeou a bordo do cruzeiro Hondius é considerado de baixo risco para a população em geral. O mais recente balanço dá conta de oito casos de hantavírus, três confirmados por análises laboratoriais, e três mortes. Será que existe motivo para alarme? Pode este vírus disseminar-se e dar origem a uma nova pandemia?

Lifestyle ao Minuto falou com Raquel Vareda, médica de saúde pública, e Hélder Pinheiro, médico infeciologista, para perceber toda a situação. Os dois especialistas, tal como a OMS e de acordo com os mais recentes dados, são da opinião de que não existem grandes motivos para pensarmos numa exposição global a este vírus.

 

Hantavírus, a nova pandemia?

“Se me perguntar se há uma situação de alarme pandémico, claramente que não, portanto a transmissão de uma forma geral entre pessoa a pessoa, é muito menos provável. É um vírus que é muito menos transmissível, como por exemplo o SARS-CoV-2. É uma situação muito pouco provável”, começa por salvaguardar Hélder Pinheiro.

O hantavírus não é um vírus único e já se confirmou que a variante que circula no cruzeiro é a que é transmissível entre humanos - a Andes. Contudo, não estaremos perante um cenário idêntico ao da Covid-19.

“Temos obviamente todos algum receio de que este vírus Andes comece a surgir em mais locais do mundo, porque realmente sabemos que essa estirpe viral especificamente tem este maior potencial de transmissão pessoa a pessoa, mas por agora têm sido feitos todos os esforços para que isso não aconteça pelas autoridades de saúde envolvidas, realça Raquel Vareda.

Para a grande maioria das pessoas, o hantavírus é algo novo, mas não para a comunidade médica. Aliás, esta é apontada também como outra das grandes diferenças em relação à Covid-19, como explica Hélder Pinheiro.

É uma infeção que é desconhecida do público em geral, mas estima-se que sejam mais de 20 mil os casos por ano em todo mundo de infeção por hantavírus. A grande maioria é na China, com mais de 11 mil casos por ano. No continente americano há bastante menos, portanto menos de 500 por ano. Nos Estados Unidos, nos últimos 3 anos, foram menos de 900 casos.”

“Sabemos que estão descritos surtos localizados no tempo e no espaço já há alguns anos. Não é uma coisa nova para a comunidade médica. É muito diferente do SARS-CoV-2, que era um vírus completamente novo, uma espécie que era completamente nova para e para a qual nós não tínhamos nenhuma imunidade. A população não estava imune e depois [o SARS-CoV-2] tinha uma particularidade, transmitia-se muito facilmente de homem para homem, por via respiratória ao contrário do hantivírus.”

Apesar de rara, a transmissão do hantavírus entre humanos é possível, mas carece de condições muito específicas. “É preciso um contacto muito próximo e é preciso que a pessoa tenha uma carga viral muito elevada nas suas vias respiratórias para poder transmitir”, esclarece Hélder Pinheiro.

Digamos que [a via respiratória] não é uma via de transmissão que nós associemos ao hantavírus. Habitualmente, estes surtos de hantavírus são contidos no tempo e no espaço”, continua. Será necessário um estudo epidemiológico para perceber o que de facto aconteceu e de onde vem o foco que gerou este surto no cruzeiro. Ainda assim, já existem algumas hipóteses.

 

Transmissão entre humanos? O que pode ter acontecido no cruzeiro?

É bastante mais provável que as pessoas infetadas tenham sido só expostas à mesma fonte de contágio. É provável que os outros casos reportados no cruzeiro já tenham sido transmissão humano-humano e que seja esta estirpe envolvida, mas não temos ainda informação oficial, porque estamos a falar de testes genéticos que demoram algum tempo a fazer”, explica Raquel Vareda.

Hélder Pinheiro sugere também que o foco de infeção possa ter sido o mesmo. Sabemos que o barco andou a circular há mais tempo com estas pessoas lá dentro e que parou em locais de natureza selvagem em que pode, eventualmente, ter havido uma infestação de roedores que pode ter transmitido o vírus ao mesmo tempo a vários passageiros. Tem de haver aqui um inquérito epidemiológico rigoroso para tentar perceber qual foi o ponto de partida e se há ou não uma transmissão anormal dentro do cruzeiro, o que é menos provável.”

 

Hantavírus: A transmissão, os riscos e as doenças causadas

A origem do hantavírus está na inalação, ingestão ou contacto de fezes, saliva, urina de ratos e animais roedores que estejam infetados. Depois, por outro lado, e no caso de variantes específicas, podemos assistir à transmissão entre humanos.

Os hantavírus acabam por ter uma evolução desfavorável e ter uma taxa de letalidade bastante elevada. “Os vírus que normalmente circulam no continente americano provocam uma síndrome cardiopulmonar e portanto acaba ser uma doença com características maioritariamente respiratórias. Na Ásia e na Europa, é essencialmente uma febre hemorrágica, mas que afeta principalmente os rins e portanto os doentes acabam por morrer por febre hemorrágica”, explica Hélder Pinheiro.

“Os vírus desta família que podem causar doença no ser humano são todos igualmente maus. A gravidade e fatalidade são sempre piores em pessoas com comorbilidades, como idosos, pessoas com doenças crónicas ou cancro ou a fazer medicação imunossupressora, crianças muito pequenas”, completa Raquel Vareda.

A especialista em saúde pública conta ainda que a doença provocada pelo hantavírus “se inicia com uma fase febril que depois evolui para lesar os vasos do nosso corpo e o utente pode começar com hemorragias na pele, em órgãos internos e falência renal”.

“Não é algo com o qual queiramos estar infetados", concretiza Raquel Varela, que lembra também, que, apesar de não haver "cura, nem vacinas", "é possível sobreviver com terapêutica de suporte".

A Semana com NM
 

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