É a primeira vez que a companhia aborda um “tema tão delicado”, mas a mistura de drama e comédia permite que a mensagem “chegue de forma natural e envolvente”.

 

 

Cinco atrizes cabo-verdianas estreiam em março “Batom Vermelho”, uma peça que mistura drama e comédia, para marcar o Dia do Teatro e lançar um olhar sensível sobre a prostituição feminina, desafiar tabus e alertar para a exploração sexual.

A peça retrata a história de cinco trabalhadoras de sexo, “cada uma com a sua trajetória”, conta à Lusa Sabino Baessa, diretor artístico e vice-presidente da Companhia de Teatro Fladu Fla (expressão em língua cabo-verdiana equivalente a “boatos”).

 
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O objetivo é fazer com que o público “veja como certas circunstâncias da vida podem empurrar pessoas para caminhos que não escolheram”, acrescenta, durante um ensaio, no Palácio da Cultura Ildo Lobo, na cidade da Praia.

O espetáculo tem a ambição de abrir os olhos do público para realidades muitas vezes ignoradas.

“O batom vermelho simboliza a sensualidade, mas também as situações que podem conduzir mulheres a viver realidades difíceis, como pobreza, violência ou exploração sexual”, acrescenta.

É a primeira vez que a companhia aborda um “tema tão delicado”, mas a mistura de drama e comédia permite que a mensagem “chegue de forma natural e envolvente”.

“Antes, o teatro era visto como arte precária, mas hoje conseguimos mudar esse olhar. Sabemos que a plateia está pronta para ouvir e sentir estas histórias, sensíveis, mas necessárias”, refere.

Este espectáculo, marcado para o dia 21 de março, no Auditório Nacional, na cidade da Praia, faz parte de um conjunto de apresentações que estão programadas para assinalar o Dia Mundial do Teatro, celebrado em 27 de março.

Nos ensaios, as atrizes praticam movimentos, expressões faciais e danças, vestidas com botas e saltos altos.

Sobre uma mesa, espalham-se batons vermelhos, maquilhagem e espelhos que ajudam a compor o figurino e a caracterização das personagens.

Sabino orienta a cena, ajustando gestos e emoções, para que cada detalhe conte a história de forma realista e sensível.

Rose, interpretada por Sheila Martins, de 31 anos, é a única que escolheu a prostituição por vontade própria e assume-se feliz com a decisão.

As outras personagens vivem realidades marcadas por vulnerabilidade, pobreza, violência sexual ou abandono.

“No início senti algum receio, porque ainda não estamos tão habituados a falar deste tema em Cabo Verde. Mas se ninguém o fizer, como mudamos? Precisamos de falar disto”, conta Sheila Martins.

O maior desafio para a atriz é trabalhar a expressão corporal, a dança, a voz e a expressão facial.

“Procuro inspiração em pessoas que vivem esta realidade, vídeos, canais de YouTube. Ser atriz é isso, estar pronta para qualquer personagem”, acrescenta.

 

Telma Ferreira, de 19 anos, que interpreta Tânia, uma adolescente vítima de abuso sexual, também aponta o desafio emocional e físico.

“É a primeira vez que interpreto uma personagem assim. Preciso preparar o corpo, a mente e a fala para que a história não me consuma, mas, ao mesmo tempo, consiga transmiti-la ao público”, conta.

Apesar do peso da temática, Telma diz estar ansiosa pela estreia.

“O teatro é um espelho da humanidade. Representamos a vida, contamos histórias, damos voz a quem não a tem e, talvez, mudemos um pouco a sociedade através da arte”, afirma.

Para o dia da estreia, as atrizes preparam roupas vermelhas e pretas, ousadas, com perucas, maquilhagem e lingerie.

“Todas teremos os lábios vermelhos. O batom é sensual, cria suspense e dá nome à peça. Quem vê, pergunta: batom vermelho? Será drama, história? É isso que queremos provocar”, conclui Sheila Martins.

Fundada em 2002, a Companhia de Teatro Fladu Fla já apresentou várias produções em Cabo Verde e no estrangeiro e organiza o Festival Internacional de Teatro Atlântico, em outubro, com grupos do corredor Atlântico, Japão e China.

Após a estreia em crioulo, língua materna, “Batom Vermelho” deverá ser apresentada em português, levando a reflexão a públicos de diferentes países.

A Semana com Observador/Lusa