Especialistas dizem que situação financeira da Guiné-Bissau é "catastrófica", numa altura em que começam a ser suspensos os apoios internacionais. Receitas públicas em queda, com professores e médicos sem salários.
"A maior parte das famílias guineenses vivem com baixa renda. Os detentores de políticas atuais devem levar em conta esta situação, porque governar depende efetivamente de qualidade de vida dos cidadãos e esta qualidade de vida depende do nível de rendimento".
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A crise político-militar que a Guiné-Bissau enfrenta desde finais de 2025 está a agravar de forma significativa a já frágil situação económica do país, com fortes repercussões sociais e impacto direto na qualidade de vida da população.
Segundo relatos de fontes junto do Ministério das Finanças, neste momento regista-se uma queda "brutal" das receitas do Estado e as atuais autoridades estão a ter dificuldades para realizar despesas públicas correntes.
Funcionários contratados da administração pública também denunciam dispensas, situação que poderá comprometer o funcionamento normal de várias instituições do Estado.
Novas taxas
Paralelamente, entraram em vigor novas taxas, capazes de aumentar o preço de produtos de primeira necessidade no mercado. E até ao momento, o Governo não anunciou medidas compensatórias para reduzir o impacto dessas decisões sobre a população.
Em declarações à DW, o economista diz que a economia está numa situação desvantajosa, em termos da estruturação, e afirma que as estruturas macroeconómicas e microeconómicas dependem bastante da estabilidade política.
"A maior parte das famílias guineenses vivem com baixa renda. Os detentores de políticas atuais devem levar em conta esta situação, porque governar depende efetivamente de qualidade de vida dos cidadãos e esta qualidade de vida depende do nível de rendimento".
O economista defende ainda um clima de paz e de confiança para que os operadores económicos possam render e permitir que a economia funcione sem impedimentos.
O atual Governo de transição já aprovou o Orçamento Geral de Estado para 2026 num valor de aproximadamente 531 mil milhões de franco CFA, cerca de 810 milhões de euros, um crescimento de 31, 28% face ao ano anterior.
O défice orçamental previsto é de 80 mil milhões de franco CFA e os dados de previsão indicam que a inflação deverá situar-se em torno de 3,2 % ao longo de 2026.
De acordo com o Banco Mundial, a dívida pública guineense aumentou nos últimos anos e passou a representar mais de 80% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
Suspensão de apoios internacionais
A nível internacional, alguns parceiros já suspenderam os seus programas de apoio à Guiné-Bissau, devido ao golpe de Estado, entre eles a União Europeia.
O economista José Nico Dju não tem dúvidas que, se as parcerias internacionais forem cortadas, os problemas económicos do país irão agravar-se. Como explica, "estas informações de défice orçamental mostram claramente que o país irá precisar dos parceiros bilaterais e multilaterais”.
Ou seja, alerta o economista: "seria bom que o Governo da Guiné-Bissau levasse isso em consideração para permitir que estas sanções ou estas decisões que se pretende tomar a nível externo não sejam efetivadas ao país”.
Instabilidade pode comprometer ano agrícola
A agricultura é um dos pilares da economia guineense, no entanto, o início do ano agrícola é uma incerteza. Segundo o mesmo economista, a instabilidade que se vive no país pode comprometer o ano agrícola, sobretudo a campanha de comercialização da castanha de cajú.
José Nico Dju explica que, "com esta situação atual, a Guiné-Bissau passa a não ser um destino comercial, o que certamente vai aumentar mais o nível de dificuldades e limitar a qualidade de vida”.
O economista acrescenta que as autoridades devem levar isto em conta "e permitir que os operadores económicos, a nível de produção de castanha de caju, tenham condições de aumentar a sua renda."
Salários em atraso
As consequências sociais da crise já são visíveis. Estima-se que cerca de dois mil professores estejam em falta nas escolas públicas da Guiné-Bissau. E mais de três mil docentes contratados denunciam salários em atraso e ameaçam avançar para uma paralisação, caso a situação não seja regularizada.
No setor da saúde, o serviço de cirurgia do Hospital Nacional Simão Mendes (HNSM), o maior do país, encontra-se paralisado há mais de duas semanas, devido ao não pagamento de salários aos profissionais.
As incertezas refletem-se no quotidiano das famílias guineenses, sobretudo no acesso a serviços básicos e na capacidade de subsistência.
À DW, Celestino João Insumbo diz que é preciso agir para evitar o pior.
Segundo o sociólogo guineense, "as instituições sociais estão a funcionar de forma muito lenta e a própria expectativa da população está frustrada”.
"Não havendo melhoria nas finanças públicas, quem será a vítima desta situação é a sociedade guineense. É preciso que as atuais autoridades redobrem esforços para melhorar a situação das finanças públicas", diz.
A Semana com DW África







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