domingo, 21 junho 2026

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Parlamento: PAICV denuncia desorganização e falta de investimento como causas da crise energética no país

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O Partido Africano da Independência de Cabo Verde—PAICV (maior partido da oposição no país), apontou hoje, no Parlamento, vários problemas causados pelos sucessivos cortes de energia elétrica,  em particular na cidade da Praia, ilha de Santiago. Denunciou que a crise não se limita à energia elétrica, mas também ao abastecimento de água, ao mesmo tempo que  critica o Primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva, pelo silêncio perante tal situação, deixando famílias e pequenos negócios à mercê da crise. Pede ainda aos cabo-verdianos para que não aceitem desculpas permanentes nem a normalização dos apagões.

“É inaceitável que, desde o início desta crise, o Primeiro-Ministro, Ulisses Correia e Silva, não tenha dado a cara, nem uma palavra que seja, permanecendo em silêncio e ausente, deixando famílias e pequenos negócios à mercê da crise. Esta omissão revela descaso, desresponsabilização e total falta de liderança”, disse.

Esta advertência vem na sequência da declaração política do PAICV  feita esta quinta-feira, 09, pelo deputado Carlos Tavares, durante a sessão da Assembleia Nacional sobre a crise energética e escassez de água em Santiago e na Cidade da Praia. O parlamentar, que é também Presidente da Comissão Política Regional de Santiago Norte do partido, sublinha que a energia elétrica é um bem essencial e que a sua falta impacta negativamente a economia, compromete serviços essenciais e prejudica a qualidade de vida das pessoas.

“Os cidadãos enfrentam cortes constantes e prolongados de energia elétrica, muitas vezes superando dez horas consecutivas sem luz. Em vários bairros, as pessoas passam mais tempo sem eletricidade do que com ela. Esta situação não é apenas inconveniente — é crítica e insustentável. Estamos a falar de prejuízos reais e profundos para famílias e pequenos negócios — a base da nossa economia local”, analisou..

Carlos Tavares apontou diversos problemas que têm afetado diretamente a vida dos cabo-verdianos, como: Prejuizos com avarias de eletrodomesticos e perda de alimentos; As empresas perdem produtos, clientes e faturamento; Os pequenos negócios — salões de beleza, barbearias, padarias, restaurantes, oficinas, mercearias, escolas privadas e clínicas — veem o seu trabalho interrompido.

Segundo  a mesma fonte, a crise não afeta apenas famílias e empresas — atinge também serviços públicos essenciais. O sistema de comunicação e informaçao é afetado. Nas escolas, aulas que exigem recursos tecnológicos são cancelados. Cidadãos encontram barreiras para obter certidões na Casa do Cidadão, e o Campus da Justiça praticamente parou de funcionar, revelou.

“É insólito que, pessoas se desloquem à EDEC para pagar a luz e se deparem com falta de eletricidade no próprio balcão de atendimento. Este é o retrato fiel da desorganização e incapacidade de governação instalada no país”, criticou.

Para além dos constrangimentos e prejuízos indicados pelo parlamentar, Calos frisou que os cortes têm ainda impacto psicológico devastador. “Stress, ansiedade e frustração tornam-se parte da vida diária. Famílias perdem noites de sono, crianças não conseguem estudar e profissionais trabalham sob enorme pressão, sem poder atender devidamente pacientes ou clientes”.

 

Outro ponto debatido no parlamento hoje foi a escassez de água.

O deputado do PAICV indicou que famílias vivem enormes dificuldades sem água para consumo ou higiene e comerciantes enfrentam perdas e, mesmo assim, as faturas chegam todos os meses. Revelou ainda que estudos apontam contaminação na água da rede pública, com riscos sérios para a saúde e possibilidade de doenças graves.

Retrocesso na transição energética

Segundo Carlos Tavares, desde 2016, não foi adquirido um único grupo gerador. Disse ainda que a Electra sobrevive à custa de equipamentos antigos, comprados em governos anteriores do PAICV, já com sérios sinais de desgaste.

“Enquanto a procura de energia aumentou, a capacidade instalada manteve-se estagnada. E, para agravar, a penetração de energias renováveis caiu de 25% em 2015 para 18% atualmente”.

O parlamentar questionou se a decisão de segmentar o setor elétrico — separando produção, comercialização e distribuição — foi, de facto, a melhor opção para o país. E revelou que o seu partido irá “propor uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar esta crise energética, em nome do interesse nacional”.

Acesso à eletricidade com o PAICV no poder e exigências ao atual governo

Tavares recordou em seu discurso, o legado do PAICV, quando esteve no Governo — “um legado de visão e resultados concretos”.

“Quando o PAICV assumiu o poder, apenas 50% do país tinha acesso à eletricidade, e a penetração de energias renováveis era de apenas 1%. A Electra estava descapitalizada e a rede elétrica em ruínas. Mas com visão e investimento estratégico, o PAICV modernizou centrais, ampliou a cobertura elétrica, aumentou a produção, criou centrais únicas, desenvolveu parques eólicos e fotovoltaicos, e investiu fortemente na produção e distribuição de água dessalinizada. Entre 2001 e 2016, o acesso à energia subiu de 50% para 90% da população”, pode ler-se na declaração política remetida ao Asemanaonline.

Face a essa situação crítica, o deputado pede ao governo que:

  • - Aumente com urgência o número e a capacidade dos geradores de reserva, de forma a garantir que o sistema se mantenha ativo caso as centrais principais falhem;
  • - Apresente um relatório público detalhado sobre o estado real da Central do Palmarejo e das demais infraestruturas energéticas do país;
  • - Aprove o Plano Nacional de Segurança Energética, com metas claras de curto, médio e longo prazo, para evitar novas crises e garantir estabilidade no abastecimento elétrico;
  • - Invista na modernização do sistema energético, priorizando energias renováveis, armazenamento de energia e redes inteligentes, de forma a reduzir a dependência de centrais obsoletas e vulneráveis;
  • - Crie uma célula de coordenação interinstitucional permanente entre o Ministério da Energia, a empresa de eletricidade, a entidade reguladora e outras entidades, para monitorizar riscos e antecipar falhas;
  • - Reforce a fiscalização e as auditorias públicas por parte da entidade reguladora, assegurando transparência, qualidade do serviço e uso eficiente de recursos;
  • - Esclareça publicamente as dívidas acumuladas pela empresa pública do setor energético a fornecedores, divulgando valores, prazos e responsabilidades;
  • - Compense de forma justa as famílias e pequenos negócios pelos prejuízos materiais e operacionais provocados pelos apagões.

Carlos concluiu, alertando, aos cabo-verdianos, se estará o Governo a preparar outro perdão de dívidas de luz em período eleitoral, como aconteceu em 2021, “para iludir os eleitores e encobrir a sua incompetência e seu fracasso”.

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