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PERFIL: O Homem por trás das Nações Unidas: Jornada íntima do diplomata que encontrou em Cabo Verde seu refúgio (c/áudio)
De menino prodígio do violino na Alemanha a representante residente da ONU no país, David Matern reflecte a determinação do seu signo de Touro na vida e faz de Cabo Verde o seu refúgio e o seu lar. Numa entrevista sem gravata, sentado descontraidamente no ambiente silencioso do seu gabinete nas Nações Unidas, na Praia, David Matern abre o livro da sua vida de forma descomplexada. Numa tonalidade de voz calma e serena, pontuada por algumas gargalhadas, o diplomata revela as marcas de uma infância feliz, as provações de uma juventude difícil, além das suas alegrias, aspirações e uma paixão genuína pela cultura cabo-verdiana. Sob o nome completo de David Georg Walter Matern, que carrega como orgulhosa homenagem aos seus avós, o diplomata revela na postura a serenidade típica de quem encontrou o seu refúgio a caminhar pelas montanhas de Santiago. Longe dos holofotes diplomáticos, dos discursos oficiais e dos relatórios das Nações Unidas, o Representante Residente da ONU em Cabo Verde, que lidera o PNUD, a UNICEF e o UNFPA, rege as suas acções sob a integridade como palavra de ordem e assume um lema de vida também tão simples quanto poderoso que assenta na confiança em si próprio. Quem o vê de fato e gravata nas reuniões oficiais talvez não imagine que o seu momento favorito do dia começa bem cedo, às 05:30, quando o mundo ainda desperta. É no silêncio dessa hora que o David diplomata dá lugar ao David homem, o mesmo que desfruta da paz matinal e encontra poesia no pedaço de terra que cultiva no jardim da sua casa. Nascido a 10 de Maio de 1975, no emblemático ano em que Cabo Verde proclamou a sua independência, David é um taurino que espelha claramente as características do seu signo, determinação e confiança na forma de fazer as coisas. Cresceu no centro da Alemanha, perto de Frankfurt, numa infância que evoca como um período “cheio de amor”, muito ligado à natureza e à música. “Toco violino e, durante alguns anos, toquei o majestoso órgão de igreja”, recorda com nostalgia, comentando que embora não toque o instrumento há décadas, encontrou no arquipélago o ambiente perfeito para o resgatar. “Em Cabo Verde, a música faz parte da cultura familiar. Ouvir os amigos cantar e tocar é um convite para redescobrir o meu passado musical”, exteriorizou. Contudo, a juventude trouxe-lhe um teste precoce de maturidade, quando uma doença grave e prolongada da mãe, que a manteve hospitalizada por mais de um ano e meio, o forçou, aos 13 anos, a assumir o papel de cuidador da irmã, dois anos mais nova do que ele. “Foi um período que me ensinou a importância da independência e da responsabilidade”, recordou, lembrando que, logo aos 15 anos, a sua vida mudou radicalmente e abriram-se-lhe os horizontes ao receber uma bolsa de estudo para Itália. Ali, convivendo com 200 jovens de 60 nacionalidades, plantou-se a semente do diplomata poliglota, que aprendeu português do zero com a “professora Mónica cabo-verdiana”, e que abomina a injustiça e a arrogância do poder sem limites. Esta repulsa é profundamente influenciada pelo peso histórico do passado ditatorial da sua Alemanha natal (1933–1945), o que reforça o valor que dá a Mahatma Gandhi como uma das suas grandes referências de vida. David Matern é um homem de afectos profundos, mas a carreira diplomática exige renúncias, tanto que se divorciou há cerca de um ano aqui em Cabo Verde, após duas décadas de casamento. A ex-mulher, uma nova-iorquina habituada à efervescência da metrópole onde viveram durante sete anos, não se adaptou à pacatez e à dimensão do arquipélago, enquanto David via em Cabo Verde a grande oportunidade da sua vida profissional. O casamento terminou, mas a ligação às ilhas estreitou-se. E se o coração está pronto para um novo amor, talvez cabo-verdiano, o diplomata dá gargalhadas: “Veremos. Não vou especular sobre o futuro, mas a possibilidade existe certamente”. Se a agenda oficial está sempre cheia de visitas e encontros formais, David protege com zelo os seus momentos íntimos e descontraídos no meio dos amigos mais próximos. Nesses encontros privados, longe do protocolo rigoroso, ele revela o seu verdadeiro “hobby secreto” ao soltar a voz a cantar mornas, arriscar alguns passos de dança, porque acredita ser essencial permitir ao corpo a livre expressão do que sente, e contar histórias num ambiente onde pode falar francamente sobre as suas esperanças e desafios. Se no escritório a abordagem tem de ser sistemática, na cozinha de David Matern impera uma deliciosa e caótica improvisação. “Quando eu cozinho é um momento de grande, grande caos, e deve ser”, conta, entre risos, sobre a sua abordagem não sistemática com o que encontra no frigorífico, transformando esse espaço de descoberta no cenário ideal para preparar os seus pratos favoritos. De Itália, trouxe o amor eterno pelas massas, de Cabo Verde adotou a paixão pelo peixe fresco local, fazendo do esmoregal e do atum verdadeiros momentos de emoção gastronómica, sem esquecer a preparação de saladas frescas enriquecidas com as frutas locais, como a manga e a papaia. A sua rotina de desconexão passa por rituais de paz, que incluem falar ao telefone todos os dias com a mãe, de 85 anos, que vive na Alemanha, a quem liga sempre para ouvir a voz antes de entrar no escritório, mitigando a saudade e a dor recente da perda do pai, falecido no início do ano, e sair ao quintal todas as manhãs para momentos de pura contemplação. “Tenho um pequeno jardim onde cultivo quatro tipos de bananas cabo-verdianas diferentes, uma mangueira e tomates. Cuidar de uma planta significa cuidar do futuro. Ver a flor da banana abrir e ver nascer doze pequenas bananas a cada dia dá-me uma grande alegria”, manifestou. Praticante de caminhadas longas, com percursos de 10 a 15 quilómetros aos fins de semana, David Matern já palmilhou o interior de Santiago, do Fogo e de Santo Antão. Nessas andanças, muitas vezes acompanhado por amigos da comunidade diplomática, como o embaixador da Índia, com quem já partilhou 35 caminhadas, aproveita para chegar a pé às comunidades mais isoladas, como as da Serra Malagueta. Conta que as montanhas do interior de Santiago se tornaram o seu refúgio favorito, um cenário onde ler, caminhar e ouvir as Sinfonias de Beethoven lhe restabelecem o equilíbrio interno. “Conversar com as pessoas sobre o seu dia a dia ensina-me muito e faz-me reflectir sobre o que os nossos programas da ONU precisam de fazer de diferente”, explicou. Foi nas vésperas do dia em que ia de férias para a Alemanha, onde planeou visitar a família e assistir a um festival de música clássica na floresta da Baviera, que o diplomata admitiu que, após duas semanas longe, o corpo costuma pedir-lhe para regressar para Cabo Verde, o seu aconchego. Perspectivando o futuro da sua própria vida e do país que o acolhe, o homem que sorri sem esforço com as brincadeiras das crianças e que guarda saudades dos tempos em que brincava nas florestas alemãs na infância, deixa claro o seu compromisso. Para David, Cabo Verde já é “a sua casa”, e o seu maior desejo para o arquipélago que sopra as mesmas 50 velas que ele é claro: “Um país onde cada criança, cada mulher e cada jovem tenham as mesmas oportunidades”. Quase a terminar, o diplomata fez questão de sublinhar que o PNUD, a UNICEF e o UNFPA continuarão firmes ao lado de Cabo Verde, lembrando com convicção, com um carinhoso sotaque em crioulo, que na caminhada rumo ao desenvolvimento sustentável, “nu sta djunto” (estamos juntos, em português). A Semana com Inforpress
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