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Santo Antão: "A jóia de Cabo Verde"
Em 2025, a ilha de Santo Antão, em Cabo Verde, recebeu cerca de 45 mil turistas, atraídos pelos seus famosos trilhos, criados desde a época colonial, pelas praias de areia negra e pelas experiências gastronómicas. Odair Gomes, vice-presidente da Associação dos Guias de Turismo de Santo Antão, descreve a ilha como a «jóia» do país, destacando uma oferta turística diversificada, procurada tanto a nível internacional como nacional. Estamos numa ilha que está a ganhar algum dinamismo a nível do turismo. O que distingue Santo Antão? A ilha tem uma especialização maior no turismo de caminhadas, no turismo rural e no ecoturismo, que é um segmento que tem vindo a crescer bastante em Santo Antão.Temos uma vasta rede de trilhos que foram criados ainda no tempo colonial. Na altura, serviam para permitir a deslocação das pessoas dentro da ilha, o transporte de produtos agrícolas e a própria comunicação entre localidades. Hoje em dia, esses trilhos servem o turismo, embora continuem também a ser utilizados pelas comunidades do interior. Por isso, a maior parte dos turistas que vêm para Santo Antão procura precisamente explorar e caminhar nesses percursos. A ilha e o próprio Governo têm desenvolvido um trabalho extraordinário na sinalização dos trilhos, em parceria com organismos internacionais, como a Associação de Defesa do Património de Mértola, em Portugal, que tem ajudado a mapear e a sinalizar os percursos, de forma a garantir a segurança dos visitantes. É um desafio enorme manter esses trilhos. Temos uma ilha com uma orografia difícil, muito montanhosa. Santo Antão é a ilha mais montanhosa do país e nem sempre é fácil assegurar a manutenção atempada dos percursos. Esse tem sido, aliás, um dos handicaps do nosso turismo, já que a caminhada é a principal actividade turística. Por isso, a preparação e manutenção dos trilhos têm de continuar a ser uma prioridade. O que representa o turismo rural para a ilha de Santo Antão? E de onde vêm os turistas? A ilha está a crescer todos os anos e a maior parte dos turistas que recebemos são franceses. Em 2025, Santo Antão recebeu cerca de 45 mil turistas, o que representa um aumento significativo em relação ao ano anterior. Estamos a crescer tanto ao nível do turismo como ao nível das estruturas de alojamento e da qualificação dos profissionais. No entanto, também estamos a perder muitos profissionais, sobretudo guias turísticos. Esse deverá ser um dos próximos desafios da ilha: formar mais profissionais para o sector, não apenas para a hotelaria, mas também para o turismo de natureza e de caminhadas. Estão a perder guias turísticos. A que se deve essa situação? O turismo em Santo Antão, e em Cabo Verde de uma forma geral, continua a ser muito sazonal. A época alta começa normalmente em Novembro e prolonga-se até Abril. Nos últimos anos, tem vindo a iniciar-se ainda na segunda metade de Outubro e a estender-se até Maio. Apesar disso, continuamos a ter uma época baixa, e muitas pessoas dependem do turismo para viver. Quando surgem oportunidades noutras ilhas, como o Sal e a Boa Vista, que são os principais destinos turísticos do país, muitos profissionais acabam por sair. Além disso, há uma questão demográfica. Há cerca de quinze anos, Santo Antão tinha perto de 50 mil habitantes. Hoje temos apenas cerca de 36 mil. A ilha está a perder população de forma acelerada e nem o Governo central nem as autoridades locais têm conseguido travar essa tendência. A procura de emprego e de melhores oportunidades continua a levar muitas pessoas a emigrar. Muitas vezes, quando se fala de Santo Antão, fala-se do isolamento. Como se combate essa ideia? Eu não gosto muito do termo «isolamento», porque não considero que Santo Antão esteja isolada. Ao nível dos transportes marítimos, temos o canal mais rentável do país. Existem duas ligações de manhã e duas à tarde entre Santo Antão e São Vicente. O fluxo de pessoas e de turistas é constante. As ligações marítimas existentes são suficientes? Na época alta, nem sempre são suficientes. Sem transportes não há turismo.Seria importante que uma das embarcações estivesse sediada em Santo Antão, em vez de todas estarem baseadas em São Vicente. Ainda não acontece, mas esperamos que possa vir a acontecer no futuro. É um desejo dos santantonenses. Além disso, essa solução seria importante para situações de emergência. Temos um hospital na ilha, mas para tratamentos mais complexos ou situações mais graves é frequente recorrer a São Vicente. Dispor de uma embarcação permanentemente sediada em Santo Antão permitiria respostas mais rápidas, beneficiando tanto a população como o próprio turismo. Um barco baseado no porto de Santo Antão seria uma mais-valia e deveria constituir uma aposta dos próximos governos. Tem-se falado muito da diversificação da oferta turística. Para além do trekking, caminhadas, que outras actividades podem ser desenvolvidas na ilha? Em Santo Antão pode praticar-se praticamente todo o tipo de turismo. Temos praias, sobretudo no concelho do Porto Novo. A ilha está dividida em três municípios e, na costa sul, encontramos várias praias de grande beleza. A diversificação passa também por valorizar esse património. Temos a maior praia de areia negra do país, localizada na aldeia do Tarrafal. Paralelamente, têm vindo a ser criados novos produtos turísticos, tanto no ecoturismo como no turismo gastronómico. Hoje já existem experiências em que os visitantes aprendem a confeccionar pratos típicos com a ajuda de profissionais locais. Também é possível praticar canyoning, mergulho, snorkeling e BTT downhill. O campismo está a começar a desenvolver-se, assim como o agroturismo e o turismo comunitário. Precisamos de continuar a potenciar estes nichos, mas já existem sinais claros de diversificação da oferta. A par do turismo de sol e praia que caracteriza outros destinos de Cabo Verde, Santo Antão tem-se afirmado precisamente por oferecer experiências diferentes. E não é apenas o turismo internacional que procura a ilha; também o turismo interno tem vindo a crescer. Costumo dizer que Santo Antão é a jóia do país. Muitas pessoas visitam a ilha durante a época das chuvas, quando a paisagem ganha um verde intenso, surgem cascatas e a natureza se torna particularmente exuberante e atractiva. Quando se observam fenómenos de massificação turística e de degradação dos destinos, existe essa preocupação em Santo Antão? O turismo sustentável não é uma tarefa fácil. Qualquer destino que pretenda implementar um modelo sustentável tem de fazer investimentos estruturais e organizar-se adequadamente, promovendo acções de sustentabilidade a nível social, económico e ambiental. No entanto, ao nível ambiental têm sido dados passos interessantes. Santo Antão tem procurado afirmar-se como um exemplo de turismo sustentável e esse continua a ser um dos principais objectivos para o futuro. A Semana com RFI
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