ATUALIDADE
Cabo Verde: Mulheres que fazem florescer o Planalto Leste de Santo Antão
No coração do Planalto Leste, na ilha de Santo Antão, um grupo de mulheres desafia diariamente as limitações impostas pela seca e pelas alterações climáticas. Fundada em 2005, a Associação das Mulheres do Planalto Leste reúne actualmente cerca de três dezenas de associadas e tem desenvolvido projectos de desenvolvimento sustentável, apostando na agro-floresta, na preservação da flora endémica, na formação de agricultores e no turismo rural. É no viveiro agro-ecológico da associação que começa a visita guiada pela presidente, Josefa Sousa. O espaço integra um projeto desenvolvido em parceria com a Associação de Defesa do Património de Mértola, de Portugal, e financiado por várias entidades internacionais. "Este viveiro começou com o projecto da agro-floresta, mas hoje já trabalhamos também com a flora endémica, plantas medicinais e outras iniciativas. O projecto tem-nos ensinado a criar a nossa própria água", explica. Uma das soluções encontradas é a captação do nevoeiro, uma tecnologia simples que transforma a humidade do ar em água para irrigação. "Quando há nevoeiro, as gotas ficam presas na rede, escorrem pelos tubos até ao reservatório e depois usamos essa água para regar as plantas do viveiro", mostra Josefa Sousa. No viveiro crescem espécies endémicas, plantas medicinais e árvores florestais, como o pinheiro. O objetivo é conservar espécies ameaçadas e reforçar a recuperação ambiental da região. "Queremos cuidar daquilo que já existe e aumentar a população das plantas que estão em risco de desaparecer. Também preservamos plantas medicinais e ensinamos as pessoas sobre as suas utilizações." Outro dos princípios aplicados no campo experimental é a cobertura do solo com matéria orgânica, uma técnica que ajuda a conservar a humidade e a enriquecer naturalmente a terra. "A matéria morta protege o solo do sol e do vento. À medida que se decompõe, transforma-se em alimento para a terra. Primeiro temos de alimentar a terra para depois ela nos alimentar a nós." A reutilização dos recursos faz igualmente parte das práticas implementadas. Em vez de recorrer apenas à água para irrigação, utilizam plantas como aloé vera e cactos para libertar lentamente humidade junto das raízes. "São técnicas de sobrevivência para a agricultura de sequeiro que fomos aprendendo ao longo dos projectos. Funcionam muito bem e dão sustentabilidade à nossa agricultura." No campo experimental testam-se ainda diferentes culturas, associações entre espécies e sistemas de protecção contra o vento e o excesso de sol. "Este projecto funciona como uma escola. Experimentamos diferentes técnicas e observamos quais resultam melhor em cada zona. Depois transmitimos esse conhecimento aos agricultores, que muitas vezes não têm condições para correr o risco de perder uma produção." Mesmo perante condições extremas, Josefa Sousa garante que é possível produzir. "Aqui há parcelas que praticamente não recebem rega. Sobrevivem graças ao corta-vento, à cobertura do solo e à associação das plantas." Além da agricultura, a associação tem vindo a diversificar as suas actividades para criar novas fontes de rendimento para as famílias. "O nosso objectivo sempre foi criar alternativas para melhorar a educação, a saúde e a habitação das mulheres. Nem tudo foi possível, mas já conseguimos muita coisa." Entre essas conquistas estão um alojamento local gerido pelas associadas, um centro de transformação de produtos locais, onde são produzidos doces e licores, e um banco de sementes destinado à preservação de espécies agrícolas e florestais. "Antes perdíamos muita fruta durante a época das colheitas. Hoje conseguimos transformá-la em doces e licores que podem ser vendidos. Também recolhemos sementes para preservar espécies e aumentar a floresta." Apesar dos avanços, Josefa Sousa reconhece que o trabalho associativo continua a enfrentar vários desafios. "A maior dificuldade é quando o trabalho acaba por ficar concentrado em duas ou três pessoas. Assim torna-se muito difícil fazer a associação funcionar." A presidente aponta ainda uma situação que considera injusta: a impossibilidade de os dirigentes das associações serem remunerados pelos projectos que coordenam. "Os presidentes trabalham gratuitamente. Eu muitas vezes faço o trabalho sozinha, mas depois tenho de procurar outro emprego para garantir o meu sustento. Se pudesse dedicar-me exclusivamente à associação, conseguiríamos fazer muito mais." Para Josefa Sousa, esta realidade coloca em causa o futuro do associativismo. "Se esta regra não mudar, chega uma altura em que ninguém vai querer assumir a presidência de uma associação. As pessoas dão muito de si, mas também precisam de viver." Num território onde a água é escassa, o conhecimento tornou-se um dos recursos mais valiosos. E é precisamente essa partilha de saberes que a Associação das Mulheres do Planalto Leste procura cultivar todos os dias, transformando dificuldades em oportunidades e mostrando que, mesmo nas zonas mais áridas de Cabo Verde, é possível fazer crescer vida. A Semana com RFI
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